terça-feira, 17 de junho de 2008

OS “PAULISTAS” QUE VIVERAM EM 8.000 aC

Megalobulimus



Professor Eduardo Melander Filho


Poucas pessoas sabem que há 10.000 anos atrás o homem já ocupava as cercanias da hoje cidade de São Paulo. Eram os sambaquieiros fluviais do Vale do Ribeira, cujos restos de sua cultura encontramos em toda aquela região.
Os Sambaquis, a rigor montanhas de conchas com dezenas de metros de altura, são em sua maioria grandes cemitérios milenares, onde os mortos e seus pertences eram cobertos por uma camada de conchas. Nos dias que se seguiam ao enterro faziam fogueiras entre e sobre os túmulos, onde cozinhavam as refeições rituais que consumiam ou serviam aos mortos. Assim, sucessivamente, novos túmulos eram construídos em torno e em cima dos anteriores, fazendo com que o cemitério crescesse sempre para cima.
Diferentemente dos Sambaquis litorâneos, era utilizado como cobetura das sepulturas o “megalobulimus” ao invés de conchas, que é um caracol terrestre da região, muito comum naquela época. Os homens também eram diferentes. Estudos arqueoantropológicos indicam que eles vieram do planalto, embora adotando a cultura do litoral.
Hoje já sabemos muitas coisas sobre eles através dos estudos dos vestígios encontrados em escavações arqueológicas. Restos de ossos calcinados de animais nos indicam que eram caçador-coletores e tinham o produto da caça como principal alimentação. Consumiam preás, cotias, pacas, capivaras, catetos, queixadas, antas, cervos, animais ainda hoje existentes na Mata Atlântica. Batedores, raspadeiras, percutores, machados, furadores, anzóis e outros artefatos feitos de pedra e ossos de animais também foram encontrados. Não produziam cerâmicas.
Centenas de esqueletos são encontrados nos Sambaquis, conservados pelo calcáreo dos caracóis. O “Homem de Capelinha”, do sítio de mesmo nome em Jacupiranga, foi datado de 9.000 anos atrás e é um dos mais antigos de toda América. Análises bio-antropológicas apontam semelhanças étnicas com “Luzia”, um esqueleto datado de 11.000 anos atrás, de um sítio em Minas Gerais. Ambos possuem características negróides.


FONTE:

MELANDER FILHO, Eduardo. Os “Paulistas” que Viveram em 8.000 aC. Jornal Gazeta de Interlagos, São Paulo, 13 a 26 jun 2008. Ciência, p.2.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

DESCOBERTOS NOVOS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS NA REGIÃO DE INTERLAGOS


Prof. Eduardo Melander Filho


Novos Sítios Arqueológicos foram descobertos em Interlagos, como resultado dos Estudos de Impacto Ambiental e Histórico decorrentes das obras do Rodoanel. Sondagens por tradagem realizadas ao longo da futura estrada acusaram a existência de grandes concentrações de vestígios arqueológicos, que remetem a ocupações históricas na região desde o séc. XVI.

Foram encontrados fragmentos de telhas antigas, cerâmicas, faianças, malgas e também garrafas e porcelanas de origem brasileira e européia. Bordas, alças, bases e asas, nos permitiram a reconstrução virtual de xícaras, pratos, tigelas e outros objetos, através de técnicas de projeção a partir de pedaços ínfimos da peça original.

O Arqueólogo Prof. Dr. Paulo de Dantas De Blasis do MAE-USP, um dos responsáveis pelas escavações do trecho BR-116/Imigrantes, nos relata que grande parte do material encontrado se refere à cerâmica cabocla ou neo-brasileira, uma conjunção de tecnologias (européia, indígena e africana), que é heterogênea nos motivos decorativos (incisos, entalhes) e na composição do material. Os Sítios encontrados nesse trecho são: Panda; São Judas; São Matheus; Sete Lagoas; Itapecerica da Serra; Jd. Varginha; Fazenda dos Moraes; Guarapiranga e Bilings.

Vestígios pré-históricos também foram encontrados. Núcleos lascados de sílex para produção de instrumentos de pedra e cerâmica tupi-guarani são, provavelmente, de antes do descobrimento do Brasil. Datações por radiocarbono, que estão sendo realizadas, irão determinar a época em que foram fabricados os diversos fragmentos de artefatos encontrados.

A análise do material arqueológico já feita e em andamento, juntamente com a de documentos antigos, somadas aos depoimentos colhidos pelo método da história oral das populações atuais, nos permitirá construir toda a história regional de Interlagos e adjacências.

Obs.: Professor Melander é Historiador e Pesquisador de Arqueologia Pré-histórica brasileira.

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Fontes:

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MELANDER FILHO, Eduardo. Descobertos Novos Sítios Arqueológicos na Região de Interlagos. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 30 mai 2008 a 12 jun 2008. Ciência, p. 2.

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MELANDER FILHO, Eduardo. Descobertos Novos Sítios Arqueológicos na Região de Interlagos. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 30 mai 2008 a 12 jun 2008, p.2. Disponível em: <http://www.gazetadeinterlagos.com.br/fiquepordentro.html#6>. Acesso em: 04 jun 2008.

domingo, 18 de maio de 2008

Discurso proferido na Cerimônia de Entronização da EMEF Profa. Marina Melander Coutinho


Excelentíssimas Senhoras e Excelentíssimos Senhores componentes da mesa dessa cerimônia: Prof. Galbas Gomes, Diretor dessa unidade de ensino; Profa. Lourdes Pereira dos Santos, Assistente de Direção; Rosangela Mattos Magro, Coordenadora Pedagógica; Prof. Alexandre Cordeiro, Supervisor de Ensino; Profa. Tathyana Melander Coutinho; Profa. Nicole Fernandes, Coordenadora do CEU Cidade Dutra; Nobre Vereador Arselino Tatto.

Amigos, familiares, membros da comunidade, professores, alunos, demais presentes.

Foi um longo caminho até aqui.

Primeiramente, antes de qualquer coisa, devemos agradecimentos às muitas pessoas que, de uma forma ou de outra, contribuíram para que essa data se transformasse em realidade.

Todos sabem que o processo de nomeação que culmina com uma cerimônia como essa que estamos aqui realizando, é um processo de duração longa. No nosso caso, foram sete anos, desde quando essa idéia germinou num grupo de professores da Escola Paulo Setúbal, juntamente com professores do Beatriz Lopes.

Assim, em nome da família Melander, agradecemos aos professores do Paulo Setúbal e Beatriz Lopes, que tiveram a iniciativa de esboçar esse projeto e realizar abaixo-assinado nesse sentido.

Agradecemos também ao Prof. José Ferreira, que formalmente encaminhou o pedido à Câmara Municipal de São Paulo e ao Nobre Vereador Arselino Tatto, autor desse Projeto de Lei de nomeação.

Nossos agradecimentos às centenas de pessoas, seguramente mais de um milhar, que assinaram o abaixo-assinado dirigido à Câmara Municipal de São Paulo. São colegas da Profa. Marina. amigos, conhecidos, vizinhos, membros da comunidade.

Agradecemos: ao Prof. Galbas Gomes por ter ajudado nessa realização e no desengavetamento do Projeto de Lei na Câmara Municipal, acelerando sua reapresentação; ao Deputado Carlos Giannazzi, aqui presente, parente da Profa. Marina e nosso também, que anos atrás retirou seu projeto que nomearia essa escola como "Carlos Marighella", em prol de "Marina Melander Coutinho"; ao Vereador Ítalo Cardoso, também aqui presente, que se dispôs a ajudar no que fosse necessário pela aprovação do projeto; a todos os Vereadores da Cidade de São Paulo, que votaram favoravelmente ao Projeto, transformando-o em Lei Municipal; ao Prefeito Gilberto Kassab, que sancionou definitivamente essa Lei.

Não poderíamos deixar de agradecer ainda: aos fotógrafos Wagner Gomes do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo e Romualdo da Gazeta Mercantil, pelo trabalho de pós-fotografia, propiciando a elaboração do Retrato Oficial da Profa. Marina Melander Coutinho, aqui afixado nesse local de ensino; ao Jornal Gazeta de Interlagos, em especial ao reporter Sérgio Antônio Nunes, pela publicação da Biografia da Profa. Marina; à imprensa que porventura estiver aqui presente; aos nossos pais e sobrinha, por fornecerem as fotos de família que propiciaram a apresentação em power-point nessa cerimônia; ao Vladimir Melander e ao Rinaldo, pela transcrição digital do discurso da Profa. Marina quando paraninfa na formatura de alunos em 1989, aqui também apresentado em projeção; ao Eduardo Melander Neto e à Priscila, que fizeram as instalações de vídeo e som nesse local, garantindo a realização do evento.

E, enfim: aos diretores, professores, pais de alunos e funcionários da EMEF Profa. Marina Melander Coutinho; aos membros da Comissão Organizadora da cerimônia, Professoras Sylvia e Vânia Fernandes, Professores Nílton Oliveira e Walter Alves; aos amigos, parentes, membros da comunidade, professores, alunos e demais presentes nessa cerimônia.

Foi um longo caminho até aqui.

A Profa. Marina Melander Coutinho era uma pessoa muito querida, por todos.

Para nós, estarmos aqui participando dessa cerimônia é motivo de grande orgulho, mas também de grande impacto emocional. Sua presença, de Marina, é como se fosse imanente. Sua ausência física é ainda motivo de muita dor, que não será superada, jamais.

Lembranças de quando conversávamos até altas horas da noite sobre assuntos diversos: Filosofia Pura; Educação; História... Sobre a essência da humanidade... Ela acreditava que o homem é essencialmente bom. Torna-se mau, tanto pelas condições de vida a ele impostas, mas também por opção pessoal. E nessa direção se preocupava em oferecer um sentido de vida à juventude, que ultrapassava os limites da educação formal: uma perspectiva de vida; uma idéia a se agarrar; uma opção pela Ética da Solidariedade em seu mais alto grau. Marina era uma pessoa preocupada com a família, com seus alunos e com o destino da humanidade.

Não quis o destino que ela continuasse a cumprir a missão de sua vida. Foi embora cedo demais nos deixando órfãos, mas passando definitivamente à história pela sua história de vida. E por ter passado à história, transcende a partir de agora a figura da Educadora que foi por opção de vida; tornou-se figura pública, pertencente à comunidade num sentido amplo.

A importância da nomeação de uma escola municipal com o nome de uma professora que atuou na mesma região é também de grande destaque. Quantas vezes escolas recebem o nome de pessoas que nada tem haver com a Educação? Quantas ruas, alamedas e pontes recebem o nome de pessoas sem mérito nenhum, seguramente produto de alguma "canetada" ou de algum acordo espúrio de bastidores? Não é o caso de Marina. A EMEF Marina Melander Coutinho recebeu seu nome por merecimento, por um ato de justiça a todos os educadores. Transcedental é, portanto, a importância do evento.

Mais do que ressaltar a positividade política da nomeação, referenciada na toponímia dos espaços educacionais, ou coronímia se assim quiserem conceber, devemos refletir a respeito daquelas pessoas que queremos alçar à história. Não seria bom se houvesse mais escolas com o nome de outras tantas "Marinas", que de igual forma dedicaram suas vidas em escolas na periferia da cidade, verdadeiras heroinas e verdadeiros heróis, que na maioria das vezes repousam no esquecimento? É dessa forma que devemos tratar nossos heróis da Educação?

Para os gregos antigos, seus heróis atingiam a imortalidade não da forma como hoje a concebemos, mas sim pela memória de seus feitos. Imortal não era aquele que viveria eternamente, mas que seria eternamente rememorado nos templos por aquilo que realizou em vida. Marina se tornou imortal e essa escola é seu templo.

Nossa irmã jamais morreu em nossos corações. Viverá para sempre através da imortalidade que vocês todos proporcionaram a ela.

Muito obrigado a todos.


Eduardo Melander Filho


26/04/2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

COMUNIDADE DO JARDIM RÉGIS EM INTERLAGOS HOMENAGEIA PROFESSORA MARINA MELANDER

Eduardo Melander Filho

Sérgio Antônio



No último dia 26/04 foi realizado cerimônia para a mudança do nome da Escola Municipal de Ensino Fundamental IV Centenário, localizada a Rua Montanaro de Borba, Jardim Régis. A partir de agora a Escola passa a ser EMEF Professora Marina Melander Coutinho.
Histórico- “Marina Melander, nasceu no dia 25 de fevereiro de 1953, em Rio Cinzas, município situado ao norte do Estado do Paraná. Professora Titular de Ensino Fundamental II, conseguida através de aprovação em concurso público. Assumiu sua titulariedade na E. M. P. G. Dr. Manoel de Abreu. Em 01/02/1996, transferiu-se para a E. M. P. G. Paulo Setúbal (25), onde permaneceu até seu afastamento involuntário. Participou também de muitos eventos e cursos.
Marina foi uma professora competente, educadora consciente, colega afável, amiga leal, filha dedicada, tia carinhosa, irmã solidária, esposa compreensiva e mãe cuidadosa. Generosa é a palavra mais completa.
A professora Marina Melan­der Coutinho faleceu no dia 20 de abril de 2001. Em vida, ela fazia constantemente a pé o percurso de três quilômetros que separam a E. E. Profa. Beatriz Lopes da E. M. E. F. Paulo Setúbal. É uma agradável ironia que uma escola localizada nesse mesmo caminho tenha recebido o seu nome.
As últimas palavras que escreveu numa dedicatória no livro “Era dos Extremos” de Eric Hobsbawm, dizia: “Ao meu irmão não posso escrever, mas deixar pensamentos; esses ninguém pode apagar”. Essa frase define o caráter de Marina - “(fragmento da biografia escrita por Eduardo Melander Filho que já foi publicada neste Jornal.).
Compuseram a mesa de cerimônia: o diretor da EMEF- Galbas Gomes, a assistente de direção Lourdes pereira dos santos, a Coordenadora Pedagógica Rosangela Mattos Magro, o supervisor de ensino Alexandre Cordeiro, a filha da homenageada Tathiana Melander Coutinho, o vereador Arselino Tatto e a professora Nicole Fernandes.
Em sua fala o diretor da EMEF ressaltou a importância e o envolvimento das mães nas questões para que a escola se desenvolva cada vez mais. Também falou que ficou muito satisfeito em saber que a atual a Professora Marina teve um vinculo muito forte com o magistério e com a comunidade.
No encerramento do seu discurso Eduardo Melander Filho, disse: “Para gregos antigos, seus heróis atingiam a imortalidade não na forma como hoje a concebemos, mas sim pela memória de seus feitos. Imortal não era aquele que viveria eternamente, mas que seria eternamente rememorado nos templos por aquilo que realizou em vida. Marina tornou-se imortal e essa escola é seu templo”.
Prosseguindo, também disse Tathiana Melander, que sua mãe Marina era muito carinhosa e dedicada e que pretende seguir os passos dela no Magistério.
Entre as personalidades estiveram presentes: a coordenadora pedagógica da EMEF CEU Cidade Dutra Nicole Fernandes, ex-aluna Vera Lúcia Santos Silva\a, a Comissão Organizadora da cerimônia composta por Nilton Oliveira, Vânia Fernandes, Walter Alves e Professora Silvia, Familiares da Professora Marina, além de outras autoridades, amigos e convidados.
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Nota: Artigo publicado no Jornal Gazeta de Interlagos
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Fontes:
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NUNES, Sérgio Antônio. Comunidade do Jardim Régis homenageia Profa. Marina Melander. Jornal Gazeta de Interlagos, São Paulo, 02 a15 maio 2008. Cultura e Lazer, p. 5.
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NUNES, Sérgio Antônio. Comunidade do Jardim Régis homenageia Profa. Marina Melander. Jornal Gazeta de Interlagos, São Paulo, 02 a 15 maio 2008. Disponível em: < http://www.gazetadeinterlagos.com.br/fiquepordentro.html#1>. Acesso em: 05 maio 2008.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Escavações Arqueológicas num Sambaqui Fluvial - Parte I

FOTO: O arqueólogo Paulo Dantas De Blasis, coordenador do projeto.

SUMÁRIO


1- INTRODUÇÃO

2- OS TRABALHOS REALIZADOS

2.1- O SÍTIO DE ESCAVAÇÃO

2.2- OS TRABALHOS DE ESCAVAÇÃO

2.2.1- Primeiro dia – 17/09/2006
2.2.2- Segundo dia – 18/09/2006
2.2.3- Terceiro dia – 19/09/2006
2.2.4- Quarto dia – 20/09/2006
2.2.5- Quinto dia – 21/09/2006
2.2.6- Sexto dia – 22/09/2006
2.2.7- Sétimo dia – 23/09/2006

2.3- AS ATIVIDADES EM LABORATÓRIO

2.3.1- Lavagem e secagem do material recolhido na escavação
2.3.2- Distribuição do material na mesa de trabalho
2.3.3- Classificação da arqueofauna
2.3.4- Colagem do material fragmentário
2.3.5- Caracterização, classificação e numeração dos líticos
2.3.6- Medição da arqueofauna maior
2.3.7- Os artefatos ósseos
2.3.8- Registro em inventário da arqueofauna

3- A ARQUEOLOGIA DE SAMBAQUIS

3.1- A QUADRÍCULA D-34

3.2- O SAMBAQUI DO MORAES

3.3- SAMBAQUIS DO RIBEIRA DO IGUAPE

3.4- A GRANDE QUESTÃO


4 – GLOSSÁRIO

5 - BIBLIOGRAFIA
1- INTRODUÇÃO

Pensamos na elaboração deste escrito, de início, de maneira concisa, de no máximo dez páginas. Minha inabilidade não conseguiu evitar que ele se tornasse extenso. Seria, de qualquer maneira, injustiça não deixar registrados, ou pelo menos sugeridos, todos aqueles momentos, que foram importantes sob o ponto de vista intelectual, didático, de aprendizado mesmo, mas também sob o ponto de vista afetivo; apaixonamos-nos pela arqueologia realizada. Assim, nosso trabalho se desenvolveu numa tentativa de aproximação da rigorosidade.
Nossa intenção, foi a de registrar todos os passos dos trabalhos desenvolvidos durante os últimos meses. Para isso tomamos algumas liberdades, inclusive a de relatar, na primeira parte do texto, quase que em forma de diário, com citações sobre o clima e o tempo. São registros que, de uma forma ou outra, indicam detalhes da geografia do local em que se desenvolveram os trabalhos de campo.
Além da anotação dos passos, fizemos questão de registrar todos os inventários, detalhes, descrições, para que este relatório possa ter alguma utilidade em alguma pesquisa que porventura necessite desses registros.
A primeira parte é descritiva, onde relatamos os trabalhos em campo e laboratório, constituindo em conseqüência, todo um inventário dos materiais arqueológicos recolhidos.
Na segunda parte, nos esforçamos em elaborar uma análise da quadrícula na tentativa de formular algumas hipóteses, utilizando argumentos que, com todos os defeitos que com certeza têm, consideramos válidos. Em seguida, passamos ao sítio, ao Vale do Ribeira e à questão geral dos Sambaquis, sempre tentando incorporar a discussão local, ampliando-a ao geral.
Destacamos como questão geral a importância didática de todo trabalho em campo e laboratório, assim como na elaboração deste relatório final.
Destacamos como questão central, a constituição do Sambaqui enquanto monumento, espaço ritual segregado do espaço de moradia, naquilo que Polignac aponta como a separação do mundo dos vivos do mundo dos mortos, como condição necessária para que haja uma delimitação do território de um grupo social politicamente organizado. Witfogel já havia percebido isso nos estudos das Sociedades Hidráulicas e Gordon Childe também. E nada me indica que estudar o aparecimento de sociedades desaparecidas a partir do estabelecimento de monumentos de rituais de fundo religiosos, entre em choque com a perspectiva de se estudar também sob o enfoque do modo de produção e da luta de classes.
Por fim, somamos outros objetivos aos trabalhos desenvolvidos. Registramos em fotografia, de forma analógica e digital, os contextos dos trabalhos realizados em campo e em laboratório, além do registro dos artefatos, líticos e arqueofauna, produtos de coleta em escavação. O esforço fotográfico foi aliado ao curso de Fotografia Aplicada, realizado no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Juntamos assim, didaticamente, duas atividades numa só.
2- OS TRABALHOS REALIZADOS

2.1- O SÍTIO DE ESCAVAÇÃO

O sítio do Sambaqui do Moraes localiza-se a nove Km da cidade de Miracatu-SP, Vale do Ribeira, às margens, praticamente, do córrego de mesmo nome, afluente do Rio São Lourenço, encravado num bananal de propriedade particular. Tem uma elevação de mais ou menos 2 m e cerca de 30 m de diâmetro. Limita-se ao sul e oeste com uma vala de irrigação, à leste com o córrego e ao norte com um terreno plano. É cortado por uma pequena estrada no sentido norte-sul em sua porção oeste, sendo envolvido em todos os lados por um bananal. O ponto Z (nível 0) está situado na parte central e mais alta do Sambaqui.
As escavações se organizam por quadrículas de um metro por um, sendo localizadas por letras, num sentido crescente, de oeste para leste, e números, também crescentes, de norte para sul, a partir de um ponto Zero (de contagem). Assim, o ponto Z (nível 0) está localizado entre as coordenadas L e M, assim como entre as 19 e 20, distanciando-se 22,5 m ao sudeste do ponto Zero (de contagem).
Nessa temporada, foram escavadas quadrículas das linhas E e F, dos números 20 ao 35, além da D-34 que fica rente à pequena estrada e de outras quadrículas no alto do Sambaqui, próximas ao nível Z, dando continuidade às escavações empreendidas pela expedição anterior de 2004.

2.2- OS TRABALHOS DE ESCAVAÇÃO

As escavações envolveram uma rotina de trabalho diário, que se desenvolveu entre os dias 17/09/2006 e 23/09/2006. Resumidamente, consistiu numa série de procedimentos, sendo os mais importantes:

- medição dos níveis de profundidade da quadrícula;
- escavação pela técnica de decapagem e recolha da arqueofauna, líticos e artefatos visíveis;
- peneiragem do material resultante da decapagem, lavagem no riacho e recolha de materiais menores;
- acondicionamento do material recolhido em saquinhos plásticos e vedados, com numeração própria por categoria de material (artefatos ósseos, líticos, arqueofauna) e por níveis de dez em dez centímetros;
- identificação dos níveis de profundidade, através do nivelador de distância, dos materiais importantes encontrados;
- observação geral da escavação e da estratigrafia, e registro dos aspectos observados.

Passamos, então, ao relato dos trabalhos que se desenvolveram e dos registros resultantes de tal esforço.

2.2.1- Primeiro dia – 17/09/2006.

Iniciamos os trabalhos já à tarde deste mesmo dia. Chegamos ao Sítio do Moraes por volta das 14:00 hs. Observamos de início, os vários sedimentos que se apresentam na encosta do barranco que fica rente à pequena estrada que rasgou o Sambaqui na porção oeste. São quatro segmentos e bem visíveis. Terra preta em cima, paleopraia embaixo, indicando que o terreno se situava às margens de um curso d’água. O concheiro é constituído de caramujos da espécie Megalobulimus, hoje praticamente extinta na região pela introdução há anos de um similar africano destinado à produção de carne (Scargot). Espécimes africanos escaparam, competindo com os nativos e se tornando extremamente venenosos aos seres humanos.
Após a apresentação geral do Sambaqui, o que incluiu duas covas incrustadas no barranco rente à estrada, de onde foram retirados vários enterramentos anteriormente, iniciamos a retirada de “pedra de brita” das quadrículas, que foram preenchidas por elas após a última escavação, no sentido de preservar o contexto do sítio das intempéries e intrusões. Este sistema vem a substituir com sucesso o preenchimento do espaço com sacos de terra ou areia, pois é muito menos trabalhoso e suscita menos atenção de estranhos, quando a equipe deixar o local.
Houve também a apresentação, com instruções de manejo, do nivelador de distância.
O ambiente era de chuva, garoa e neblina.

2.2.2- Segundo dia – 18/09/2006.

Choveu praticamente o dia todo, principalmente à tarde, quando montamos uma cobertura de plástico preto na área de escavação. Os caminhos viraram uns lamaçais, principalmente o que leva ao riacho, onde peneiramos e lavamos o material.
Pela manhã, foram feitas as medições, estabelecendo os marcadores que definiram as quadrículas. Todos escolheram as suas, e eu, a D-34. Em alguns casos, houve mais de uma pessoa trabalhando numa. Foi o nosso caso. Eu e a Quéfren trabalhamos conjuntamente na D-34, na parte da tarde e no dia 19/09/2006. No dia 20/09/2006 ela voltou a São Paulo.
As marcações de nível inicial foram:

- Z = 336 cm NE
- Z = 330 cm SE
- Z = 355 cm NO
- Z = 350 cm SO

Os registros nas fichas de nível de escavação foram:

Nível 00 – 10

- NP- 2326 – arqueofauna
- Pedra queimada – descartada – y=26 cm – x= 22 cm – z= 0-10 cm

Nível 10 – 20

- NP- 2360 – arqueofauna
- NP- 2333 – machado – y= 14 cm – x= 31 cm – z= 346 cm
- NP- 2347 – seixo lascado – y= 38 cm – x= 4 cm – z= 354 cm

É importante ressaltar que, na parte da tarde, ficou decidido que iríamos escavar apenas a metade leste da quadrícula D-34, pois havíamos atingido um bloco de argila na metade oeste, além dessa metade estar bem rente onde foi rasgada a pequena estrada, estando, portanto, provavelmente contaminada com o aterro resultante de tal corte. A continuidade da escavação na metade leste era necessária, pois, além de haver um seixo incrustado na parede leste da quadrícula, havia possibilidade de se encontrar restos de um sepultamento, que foi encontrado na expedição anterior na E-34. Havia também o objetivo de se atingir o máximo de profundidade, a fim de se desenhar o perfil estratigráfico, pois a D-34 se localiza nos limites do Sambaqui.


FOTO - Linha de escavação, sentido sul.

2.2.3- Terceiro dia – 19/09/2006.

O dia foi ensolarado, apesar de garoar um pouco de manhã. Importante ressaltar a presença de poucos líticos e muito carvão no nível 20 – 30, alguns no 30 – 40, indicando algum tipo de combustão. Foram encontrados também, muitos dentes de animais entre os níveis 20 e 40.
Digno de registro, uma concentração de pedras em leque, provavelmente resultante de rolagem Encontrado no final do dia, um afloramento de ossos, depositado sobre uma mancha de concheiro, que somente neste nível de escavação começa a aparecer.
As marcações de nível inicial, pela manhã, foram:

- Z = 351 cm NE
- Z = 354 cm SE
- Z = 355 cm NO
- Z = 350 cm SO
- Z = 356 cm Centro (metade oeste)
- Z = 360 cm Centro (metade leste)

FOTO- Pedra queimada descartada – y= 26 cm – x= 22 cm – z= 00 – 10

Os registros nas fichas de nível de escavação foram:

Nível 20 – 30

- NP- 2374 – arqueofauna
- NP- 2376 – arqueofauna
- Seixo descartado – y= 84 cm – x= 16 cm – z= 351 cm



FOTO - Concheiro aparecendo. Afloramento ósseo sobre ele. Marcações de profundidade coincidem com marcação inicial do dia 20/09/2006. Quadrícula D-34.

Nível 30 - 40

- NP- 2386 – arqueofauna
- NP- 2393 – arqueofauna
- NP- 2392 – seixo grande – y= 10 cm – x= 0 cm – z= 364 cm
- Seixo descartado – y= 38 cm – x= 12 cm – z= 367 cm
- NP- 2388 – seixo – y= 39 cm – x= 28 cm – z= 368 cm
- NP- 2389 – seixo – y= 29 cm – x= 46 cm – z= 372 cm
- NP- 2391 – seixo – y= 16 cm – x= 32 cm – z= 371 cm
- Seixo (permanece no local) – y= 0 cm – x= 16 cm – z= 365 cm
- Seixo descartado – y= 13 cm – x= 39 cm – z= 375
- Seixo pequeno descartado – y= 10 cm – x= 17 cm – z= 370 cm
- Seixo pequeno descartado – y= 24 cm – x= 7 cm – z= 368 cm
- Seixo pequeno descartado – y= 2 cm – x= 22 cm – z= 3,69 cm

Nível 40 – 50

- NP- 2406 – arqueofauna

Os seixos do nível 30 – 40 serão mais bem caracterizados mais na frente, quando retomaremos. Importante perceber a medida de profundidade dos, por enquanto assim classificados, seixos. Aqueles que foram descartados mantivemos em nosso arquivo particular.

2.2.4- Quarto dia – 20/09/2006

Pela manhã, neblina e garoa. À tarde, chuva que transformou os caminhos em lodaçais.
Durante a escavação, enquanto o nível 40 – 50 estava quase terminado, houve a orientação de continuar a decapagem apenas no quarto SE da D-34, pois apareceu um osso incrustado na parede sul, que poderia ser de restos humanos, além de também cumprir o objetivo de atingir o solo de granito, a fim de desenhar o perfil estratigráfico desse “fim de Sambaqui”. Destaque para esse osso incrustado, para o conjunto de ossos que foi retirado (ossos sobre o concheiro) e osso furado, possivelmente propositalmente, para ser usado como artefato.
As marcações de nível inicial foram:

- Z = 372 cm NE
- Z = 370 cm SE
- Z = 375 cm Centro (metade leste)
Os registros na ficha de nível foram:

Nível 40 - 50

- NP- 2433 – arqueofauna
- NP- 2434 – líticos
- NP- 2431 – conjunto de ossos – y= 49 cm – x= 15 cm – z= 374 cm
- NP- 2488 – osso incrustado (recolhido em 21/09/2006) – y= 0 – x= 32 cm – z= 380 cm

Nível 50 – 60

- NP- 2438 – arqueofauna
- NP- 2437 – osso com sinais de trabalho – y= 38 cm – x= 37 cm – z= 388 cm

2.2.5- Quinto dia – 21/09/2006.

O dia foi ensolarado, apesar da neblina de manhã e dos caminhos ainda terem permanecido bem enlameados.
Foi recebida a orientação de aprofundar mais, embora tenha chegado ao nível 70 no final do dia. Escavar mais fundo foi difícil pela posição que o corpo teve de tomar. Pelo fato de a D-34 delimitar visivelmente o final do sítio, tornou-se necessária a elaboração do perfil. Daí a providência de se cavar mais.
Continuamos a decapagem entre os níveis 50 – 60 cm. No entanto, por distração, ultrapassamos em profundidade. Por isso, juntamos dois níveis num só, o 50 – 70, que equivalem apenas ao quarto SE da D-34.
Os níveis de início, nessa data, foram:

- Z = 380 cm NE
- Z = 381 cm SE
- Z = 384 cm Centro (quarto NE)
- Z = 386 cm Centro (quarto SE)
Os registros foram:

Nível 50 - 70

- NP- 2489 – arqueofauna
- NP- 2468 – ponta óssea – y= 20 cm – x= 31 cm – z= 395 cm
- NP- 2480 – artefato ósseo (anzol) – na peneira – z= 60 – 70

Vale a pena destacar que foi encontrada uma placa de dente de capivara. Levy Figuti comentou que é um caso raro e que é o segundo encontrado nessa expedição. Posteriormente, em laboratório, encontramos entre o material recolhido um dente inteiro de capivara.

2.2.6- Sexto dia – 22/09/2006.

Não choveu. Pelo contrário, fez um ótimo dia.
Colhemos material até o nível 80. Após esse nível, encontramos argila pura e nenhum material de coleta. Avançamos até o nível 90, quando encontramos o granito.
Constatamos a presença de várias pedras entre os níveis 70 – 80, dez unidades na verdade, que foram descartadas, dispensando medidas individuais.
As medidas de níveis iniciais foram:

- Z = 382 cm – ângulo SE do quarto NE
- Z = 386 cm – ângulo SO do quarto NE
- Z = 398 cm – ângulo NE do quarto SE
- Z = 401 cm – ângulo SE do quarto SE
- Z = 405 cm – ângulo NO do quarto SE
- Z = 406 cm – ângulo SO do quarto SE

Foram registrados:

Nível 70 – 80
- NP- 2521 – arqueofauna
- NP- 2519 – conjunto de ossos (3 fragmentos) – y= 48 cm – x= 33 cm – z= 407 cm
- NP- 2520 – ponta óssea – na peneira – z= 70 – 80




FOTO-Atingindo a camada de granito.

A camada de granito foi atingida no final do dia, acusando a profundidade final de Z = 419 cm, no quarto SE da D-34.

2.2.7- Sétimo dia – 23/09/2006.

Eu e Flávia Urzua fizemos o perfil completo do quarto SE da D-34, no sentido sul, oeste, norte e leste. Cinco camadas estratigráficas foram encontradas, sendo, de cima para baixo: entulho; terra preta; concheiro; argila e solo granítico. Não encontramos paleopraia. Acreditamos que ela não atinja a periferia do Sambaqui.
Somente para registro, Juliana e eu acabamos a quadra E-35 do J. P., atingindo o nível de Z= 384.
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Eduardo Melander Filho
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2006


Escavações Arqueológicas num Sambaqui Fluvial - Parte II


FOTO: O arqueólogo Levy Figute, um dos coordenadores do projeto.

2.3 – AS ATIVIDADES EM LABORATÓRIO

As atividades em laboratório começaram a se desenvolver tão logo retornamos das atividades em campo. Nesse ínterim, aproveitamos para refazer as fichas de nível de escavação por estarem preenchidas de maneira indevida, impossibilitando sua compreensão.
A realização dessa gama de atividades, todas com o envolvimento meu e da Quéfren, obedeceu a um critério de etapas, as quais passamos a descrever.

FOTO - Secagem de material recolhido em escavação. Coluna da esquerda, de cima para baixo: NPs. 2434, 2488, 2326, 2374 e 2386. Coluna do meio, de cima para baixo: NPs. 2406, 2431, 2438, 2521. Coluna da direita, de cima para baixo: NPs. 2393, 2375 e 2433.

2.3.1- Lavagem e secagem do material recolhido na escavação.
Atividade desenvolvida no laboratório de lavagem durante os dias 28/092006, 01/10/2006, 02/10/2006, 04/10/2006 e 05/10/2006, quando encerramos essa etapa. Por se tratar de material, em sua maioria, composto por ossos e fragmentos muito pequenos, foi um trabalho demorado.

2.3.2- Distribuição do material na mesa de trabalho.

Fizemos a distribuição por nível de origem, organizados em linhas verticais, em contraste com os outros colegas que elegeram a linha horizontal. Embora a base de organização fosse o nível, dentro dele, mantivemos a separação por NPs. Optamos por este sistema pela falta de espaço disponível e melhor aproveitamento visual da distribuição.
Esse trabalho foi desenvolvido durante os dias 09/10/2006, 10/10/2006 e 19/10/2006.

2.3.3- Classificação da arqueofauna.

Trabalho que consistiu na separação por categorias de queima (normal, queimado, carbonizado, calcinado), por grupos de animais (mamíferos, anfíbios, peixes, aves, répteis, etc...), por espécies e por tipo de ossos. Envolveu estudos prévios sobre ossos humanos e de animais, assim como consulta de manuais especializados no assunto. Além disso, recebemos preciosas orientações do pessoal especialista nessa área. Foi o trabalho que maior tempo tomou, não só pelas minúcias, mas, também, por se tratar de material minúsculo em sua grande parte, no nosso caso.
Durante o processo de classificação, encontramos mais dois artefatos ósseos que haviam passados despercebidos na primeira instância. Receberam o número de sua NP de origem. Estão assim registrados:

Nível 40 – 50

- NP- 2433 – ponta óssea
- NP- 2433 – anzol

As atividades de classificação do material recolhido se desenvolveram durante os dias 26/10/2006, 03/11/2006, 09/11/2006, 14/11/2006, 16/11/2006 e 23/11/2006.

FOTO- Arqueofauna, líticos e artefatos ósseos recolhidos na quadrícula D-34 do sítio do Moraes distribuídos por linhas de nível na mesa de trabalho.

2.3.4 – Colagem de material fragmentário

Foram atividades que desenvolvemos entre ou nos dias das outras , colando fragmentos com o objetivo de tentar a identificação do animal a que pertencia e à parte do seu corpo que lhe correspondia. Nesse sentido, tivemos grande sucesso.
Foram quatro casos, conforme o que relatamos a seguir.

a- Onze fragmentos da NP- 2431. Refere-se àquele afloramento ósseo que despontou sobre o início do concheiro no nível 40 – 50. Durante a decapagem, o osso se desfez em contato com o ar. Colamos oito dos onze fragmentos e conseguimos identificá-lo. É um fêmur que supúnhamos, inclusive com a identificação positiva de um quase especialista, fosse humano. A expectativa durou pouco. Trata-se de um fêmur de mamífero grande, possivelmente um Cervo ou Anta, segundo nosso especialista chefe, Levy Figuti.


FOTO- Onze fragmentos de ossos da NP- 2431 – nível 40 – 50

b- Três fragmentos da NP- 2488. Refere-se ao osso incrustado na parede sul que também se fragmentou, nível 40 – 50. Após a colagem, foi identificado como um fragmento de fêmur ou tíbia de grande mamífero, possivelmente Onça ou Anta.

c- Três fragmentos da NP- 2519, que também se fragmentou, no nível 70 – 80. Colado, percebemos que se trata de uma vértebra de cauda de Anta.

d- Quatro fragmentos de concha da NP- 2360, nível 10 – 20. Colado três dos quatro fragmentos, o resultante foi identificado como fragmento de um Caracol marinho, pela espessura de sua carapaça. Não foi possível identificar a espécie.

FOTO- Fêmur de Cervo ou Anta – NP- 2431 – nível 40 – 50

Realizamos os trabalhos de colagem nos dias 31/10/2006, 07/11/2006, 08/11/206 e 09/11/2006.

2.3.5- Caracterização, classificação e numeração dos líticos.

O trabalho de classificação dentro da tipologia lítica, de verificação da constituição do seu material e numeração própria a este tipo de material, foi efetuado no dia 16/11/2006. No dia 03/12/2006, realizamos também os trabalhos de medição do material.
A maioria do material é constituída por lascas produzidas por debitagem e percussão, batedores de materiais diversos, além de raspadores, um deles feito do resto de um machado.


FOTO- Raspador feito de resto de machado quebrado, de basalto.

Relacionamos, a seguir, todos os líticos, juntamente com os dados produzidos pela nossa observação. As medidas estão designadas pelo maior comprimento, maior largura e maior espessura.

Nível 10 – 20

- Mo 1676 – Raspador em seixo lascado por debitagem – quartzo – NP- 2347 – Z= 354 cm – 11,0 x 8,4 x 3,5 cm.
- Mo 1691 – Raspador feito sobre machado quebrado – basalto – NP- 2333 – Z=346 cm – 11,8 x 6,8 x 2,7 cm
- Mo 1677 – lasca – sílex – NP- 2360 – 2,2 x 1,2 x 0,7 cm



FOTO – Raspador em quartzo lascado por percussão e debitagem.

Nível 20 – 30

- Mo 1678 – lasca – NP- 2375 – 3,1 x 2,9 x 0,6 cm
- Mo 1683 – lasca – basalto – NP- 2374 – 2,7 x 2,6 x 0,7 cm
- Mo 1684 – lasca – basalto – NP- 2374 – 2,0 x 2,0 x 0,4 cm
- Mo 1685 – lasca – quartzo – NP- 2374 – 2,0 x 1,4 x 0,6 cm
- Mo 1686 – lasca - basalto – NP- 2374 – 2,8 x 1,9 x 0,4 cm
- Mo 1687 – lasca – quartzo – NP- 2374 – 2,2 x 1,5 x 0,8 cm
- Mo 1688 – lasca – quartzo – NP- 2374 – 3,2 x 2,1 x 0,9 cm
- Mo 1689 – lasca – basalto – NP- 2374 – 3,1 x 1,7 x 0,5 cm
- Mo 1690 – lasca – quartzo – NP- 2375 – 1,5 x 1,2 x 0,8 cm
- NP- 2374 – 4 lascas
- NP- 2375 – 2 lascas

Nível 30 – 40

- Mo 1679 – batedor – quartzo – NP- 2388 – Z= 368 – 6,8 x 6,2 x 3,2 cm
- Mo 1680 – batedor – basalto – NP- 2389 – Z= 372 – 6,5 x 6,1 x 4,2 cm
- Mo 1681 – batedor – rocha básica – NP- 2391 – Z= 371 – 5,3 x 4,7 x 4,2 cm
- Mo 1682 – batedor – rocha básica – NP- 2392 – Z= 364 – 11,2 x 7,4 x 4,7 cm

Nível 40 – 50

- NP- 2434 – 8 lascas

Nível 70 – 80

- Mo 1692 – lasca – basalto – NP-2521 – 2,2 x 1,7 x 0,7 cm

2.3.6- Medição da arqueofauna maior.

Providenciamos também as medições da arqueofauna, no dia 04/12/2006, quando também fizemos as medições dos artefatos, conforme relacionamos abaixo.

- NP- 2360 – Caracol marinho – nível 10 – 20 – 3,2 x 1,6 x 0,5 cm
- NP- 2431 – fêmur de Cervo ou Anta – nível 40 – 50 – 11.8 x 2,0 x 2,0 cm – espessura do osso: 0,4 cm
- NP- 2488 – frag. de fêmur ou tíbia de Onça ou Anta – nível 40 – 50 – 7,6 x 2,6 x 1,2 – espessura do osso: 0,8 cm
- NP- 2519 – vértebra da cauda de Anta – nível 70 – 80 – 3,7 x 3,4 x 2,2 cm
- NP- 2521 – cabeça de tíbia de Anta – nível 70 – 80 – 3,8 x 2,8 x 2,2 cm


FOTO- Possivelmente trata-se de uma cabeça de tíbia de Anta.

2.3.7- Os artefatos ósseos.

Os artefatos ósseos foram lavados separadamente do conjunto do material, deixados também separadamente em um recipiente próprio para tal procedimento. No entanto, tivemos acesso a eles. Fizemos as medições dos objetos, juntamente com a arqueofauna grande e em mesma data. Vamos relacionar especificamente este material, a fim de subsidiar as reflexões que faremos em cima de todo o material coletado.



FOTO- De cima para baixo: ponta óssea, NP- 2468; osso com sinais de trabalho, NP- 2437; anzol, NP- 2433; ponta óssea, NP- 2433; ponta óssea, NP- 2520 e anzol, NP- 2480.

Os artefatos encontrados da quadrícula D-34 foram os abaixo relacionados.

- NP- 2468 – ponta óssea – nível 50 – 70 – y= 20 cm – x= 31 cm – z= 395 cm – 3,9 x 0,6 x 0,3 cm
- NP- 2437 – osso com sinais de trabalho – nível 50 – 60 – y= 38 cm – x= 37 cm – z= 388 cm – 6,9 x 1,1 x 0,9 cm
- NP- 2433 – anzol – nível 40 – 50 – 2,5 x 0,9 x 0,3 cm
- NP- 2433 – ponta óssea – nível 40 – 50 – 2,0 x 0,5 x 0,4 cm
- NP- 2520 – ponta óssea – nível 70 – 80 cm – 3,8 x 1,3 x 0,4 cm
- NP- 2480 – anzol – nível 60 – 70 – 3,1 x 0,5 x 0,4 cm



FOTO - Fragmento de fêmur ou tíbia de Onça ou Anta.

2.3.8- Registro em inventário da arqueofauna.

Nas páginas próximas, há o registro de toda a classificação da arqueofauna que fizemos, NP por NP, nível por nível, com totalizações separadas por classe de animais, espécies identificadas, tipo de ossos ou vestígios, por categoria de queima, etc...
Com esse último tópico, encerramos a descrição do trabalho que desenvolvemos nesse último período.
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Eduardo Melander Filho
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Escavações Arqueológicas num Sambaqui Fluvial - Parte III






















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FOTO: Perfil estratigráfico da quadrícula D-34
3- A ARQUEOLOGIA DE SAMBAQUIS

3.1- A QUADRÍCULA D-34

Partindo de uma reflexão inicial sobre os trabalhos de escavação, laboratório e o registro dos dados estratigráficos no perfil, podemos, grosso modo, adotar algumas constatações.
Primeiramente, em relação ao perfil do quarto SE da quadrícula D-34, numa leitura geral, percebemos que:

- A camada do concheiro começa no nível 40 cm, na parte nordeste da metade leste, segundo observações durante a escavação, registradas também através de foto;
- No quarto SE, a camada de concheiro vai se inclinando no sentido sudoeste, onde atinge uma profundidade máxima de 75/80 cm, numa espessura que passa dos 20 cm na face norte do quarto para cerca de 5 cm na profundidade máxima, se estreitando cada vez mais conforme corre nessa direção;
- Os primeiros 20 cm são constituídos de aterro, cuja origem se remete à abertura da pequena estrada lateral, que passa rente à quadrícula D-34;
- Há um seixo incrustado na parede sul do quarto SE, mais ou menos no nível 30 - 40 cm, que juntamente com outros líticos encontrados no mesmo nível, foi devidamente registrado, permanecendo como testemunha de um possível processo tafonômico;
- A camada de terra preta, vai do nível 20 cm ao 40 cm, quando se encontra com o concheiro, acompanhando-o conforme sua inclinação até o nível 75 cm;
- Entre os níveis 80 cm e 90 cm, há uma camada estéril de argila;
- Não há camada de areia configurada como paleopraia, o que acontece nas regiões mais centrais do Sambaqui.

Em segundo lugar, no tocante aos registros efetuados durante a escavação, pudemos observar a dois aspectos importantes:

- A presença de carvão entre os níveis 20 cm e 40 cm;
- Uma concentração de líticos mais ou menos no nível 30 - 40 cm.

Terceiro, como produto das observações realizadas durante os trabalhos de classificação do material recolhido em laboratório, consideramos de relevância que:

- Grande parte das lascas pequenas se encontrava concentrada no nível 20 – 30 cm;
- Os grandes líticos aparecem entre os níveis 0 e 20 cm, assim como no nível 30 - 40 cm;
- Os vestígios de arqueofauna grande aparecem somente nos níveis 40 – 50 cm e 70 – 80 cm;
- Os artefatos aparecem somente do nível 40 cm para baixo.

Por último, numa rápida observação, a contabilização da arqueofauna nos indica que:

- Existe uma quantidade desproporcional de arqueofauna entre os níveis 40 cm e 70 cm;
- Há uma alta quantidade de fragmentos de ossos não identificados.

A partir deste quadro, abraçando a hipótese de que o Sambaqui do Moraes é um centro de atividades rituais ligadas aos sepultamentos, vamos também formular duas pequenas hipóteses iniciais. A primeira se refere às atividades que foram desenvolvidas naquele espaço periférico durante os vários períodos e os processos de construção e constituição daquela porção de terreno. Propomos então, a seguinte sucessão:

1- A camada referente ao nível 70 – 80 cm é estável e seus vestígios se ligam a atividades em torno de sepultamento (s) não muito próximo (s) do local;
2- As camadas que vão do nível 40 cm ao 70 cm, referem-se a um período de atividades mais intensas, provavelmente ligadas aos rituais filiados ao sepultamento encontrado entre as quadrículas E- 33 e E-34 e outros próximos, se constituindo numa camada estável e com pouca ou nenhuma contaminação coluvial;
3- Os líticos que apareceram no nível 30 - 40 cm é material de colúvio, produto de rolamento pela inclinação do terreno;
4- A camada que vai do nível 20 cm ao 40 cm, constitui-se, grande maioria, de material de colúvio, sendo que, no entanto, houve, nas mesmas camadas, atividades de combustão proposital e de lascamento;
5- Os líticos encontrados entre as camadas 0 e 20 cm foram trazidos de outro lugar, durante as escavações da pequena estrada.

A segunda hipótese que nos atrevemos a propor, refere-se à alimentação daquele povo. Abraçamos a proposta de que eram caçadores e que o consumo de carne era preferencialmente de mamíferos. Falaremos disso mais adiante. No momento, começamos com a primeira hipótese.
Antes de tudo, é importante colocarmos que, por se tratar da extrema periferia do sítio, provavelmente nenhuma camada estratigráfica se apresenta completamente imune de material de

colúvio. O que estamos tentando dizer aqui é que, entre os níveis 40 cm e 80 cm, houve uma grande estabilidade, com pouca contaminação. Assim, o que está em jogo é se houve o desenvolvimento de atividades ligadas ao sepultamento ao lado e se os vestígios podem mostrar isso. Nesse sentido, a pouca contaminação é um indicador positivo.
A quantidade de arqueofauna encontrada nessa camada, provavelmente associada a restos de alimentos oferecidos aos mortos e ou consumidos em companhia dos mortos, atingiu proporções que nunca mais seriam atingidas. A presença de grandes ossos e fragmentos de ossos de grandes mamíferos, muito embora apareçam nos níveis 40 – 50 cm e 70 – 80 cm, são um indicativo de oferendas de grandes nacos de carne aos mortos. Não devemos nos esquecer que toda essa camada, de 40 cm a mais ou menos 70 cm, faz parte de um mesmo período, em que as deposições se dão por cima do concheiro, que se inclina de 40 cm a 75 cm, no sentido SO. Assim, quando encontramos grandes ossos em níveis tão díspares, estamos, na verdade, falando de uma mesma camada, na prática.
A presença de artefatos feitos em ossos, não encontrados em outros níveis, vem reforçar nossa hipótese de grandes atividades desenvolvidas no período de ocupação referente. Inclusive, a garra de Siri que foi encontrada no nível 50 – 70, não se sabe se resto de alimentação ou de outra utilização, indica também o contato desses homens com o litoral.
Propomos, por estas razões, que houve uma estabilidade decorrente do aumento da intensidade de utilização do espaço. No entanto, nossa hipótese não se baseia no aumento de ocupação do espaço do Sambaqui, mas sim no espaço da D-34, em função de rituais ligados a sepultamentos próximos, notadamente o da E-33/34. Tal hipótese pode ser testada através de comparação com outras quadrículas nas cercanias de outros sepultamentos, nas mesmas camadas, estabelecendo um padrão ou não. Nossa preocupação aqui é a de fazer, no momento, uma tentativa de estudo de fenômenos que se referem à D-34, mais exatamente.
Finalmente, por estar esta camada na base do sítio, representando o início das atividades humanas ali desenvolvidas, por isso mesmo, é menos susceptível aos processos tafonômicos que alterariam sua integridade inicial muito profundamente.
Mais acima dessa camada, no nível 30 – 40 cm, nos limites do nível 40 – 50 cm, aparecem alguns seixos e líticos, de maneira contígua, que, segundo nossa hipótese, se acumularam na D-34 por rolamento de encosta, por colúvio. O fenômeno preenche quatro condições para que ele pudesse ser reconhecido como tal.
A primeira condição é a existência de um terreno inclinado. Obviamente, pelos detalhes apresentados, pelo que sugere também o perfil e pelo fato da quadrícula D-34 estar localizada na periferia do sítio, esse é um terreno propício a tal acontecimento.



FOTO- Deslizamento em leque – nível 30 – 40 cm – Da esquerda para a direita (as pedras em linha) – 1- Mo 1682 – NP-2392 – Z = 364 cm – 2- descartada – Z = 367 cm – 3- Mo 1679 – NP- 2388 – Z = 368 cm – 4- Mo 1681 – NP- 2391 – Z = 371 cm – seguindo inclinação no sentido sudoeste.

A segunda condição é que as pedras, ou material, se acomodem em relação a essa inclinação de maneira também inclinada, seguindo o curso. No nosso caso isso também acontece. A primeira rocha possuía Z = 364 cm e a última, no sentido da inclinação abaixo, Z = 375 cm.
Não menos importante é a abertura em leque que a rolagem deve fazer no sentido da inclinação abaixo. Também esse quesito corresponde ao evento, conforme se pode verificar em registro fotográfico, feito em campo.
Por último, a forma das pedras. Elas devem ter o formato arredondado para que se permita a “rolagem ladeira abaixo”. Todas as pedras eram arredondadas, tipificando enfim o fenômeno que queríamos retratar.
Associado, encontramos processo semelhante, mais do que isso, provavelmente parte de um mesmo evento, na quadrícula E-35, onde no mesmo nível, apareceram pedras em disposição semelhante.



FOTO- Lítico recolhido em contexto decorrente de processo coluvial.

O processo que se dá na camada que se encontrava entre os níveis 20 cm e 40 cm é diferente. Muito provavelmente boa parte do material recolhido nessa faixa de nível pode ser coluvial. Apesar da ausência de estruturas de queima ou resquícios dela, pois não encontramos pedras queimadas ou pedaços de carvão de bom tamanho (encontramos um bom espécime no nível 40 – 50 cm, que seria uma boa amostra para exames antracológicos), acreditamos que houve queima produzida no local. A ausência pedaços maiores de carvão ou madeira pode ser explicada por processos tafonômicos, causados por chuva, colúvio, etc...
Para testar essa hipótese, vamos comparar o grau de queima de ossos com os outros níveis, pois sabemos que ossos são queimados se jogados na fogueira ou se elas forem feitas em cima dos ossos. Sabemos que a maior concentração de carvão se deu no nível 20 – 30 cm. Portanto ossos de arqueofauna desse nível, assim como do nível 30 – 40 cm, devem apresentar um grau de queima maior que os recolhidos em níveis que não apresentam sinais de fogueira.
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