domingo, 28 de setembro de 2008

Comentários sobre um texto de Dostoievski a partir de reflexões hermenêuticas: Memórias do subsolo

Capa da edição em português

Fyodor Dostoievski



Eduardo Melander Filho



“é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral? Observarei a propósito: Heine afirma que uma autobiografia exata é quase impossível, e que uma pessoa falando de si mesma certamente há de mentir. Na sua opinião, Rousseau, por exemplo, com toda certeza, mentiu a respeito de si mesmo, na sua confissão, e fê-lo até intencionalmente, por vaidade. Estou certo de que Heine tem razão; compreendo muito bem que se possa às vezes, apenas por vaidade, até urdir crimes a respeito de si mesmo, e percebo muito bem de que tipo essa vaidade pode ser. Mas Heine estava emitindo juízo sobre um homem que fazia sua confissão em público, e eu escrevo unicamente para mim, e declaro de uma vez por todas que, embora escreva como se me dirigisse a leitores, faço-o apenas por exibição, pois assim me é mais fácil escrever.Trata-se de forma, unicamente de forma vazia, e eu nunca hei de ter leitores. Já declarei isso uma vez ...”



F. Dostoiévski, O Homem do Subsolo, pp.52-3. S. Paulo: Ed. 34, 2000





O romance “O Homem do Subsolo” foi publicado pela primeira vez em 1864 na revista literária “Época”, fundada por Dostoievski e seu irmão. O personagem “Sem Nome”, funcionário da baixa burocracia russa, é um angustiado e pessimista. Revela-nos um absoluto desprezo pelo mundo a sua volta escolhendo a solidão, fato que o torna mais amargurado ainda. Dá-nos a certeza de sua profunda aversão pelo racionalismo e pela mentalidade positivista proeminentes no século em que vivia. Representa a constituição da sociedade moderna fundamentada na razão iluminista e suas contradições. Manifesta uma relação entre desejo e culpa e a frágil linha que separa a demência da razão.
A obra tem como um dos componentes centrais a questão dos limites impostos ao homem e esses limites são as leis da natureza, as ciências naturais, a matemática, a razão como medida única de todo o existente, que o personagem chama de “muro de pedra”.
Nesse trecho da obra em questão é também citada a figura de Heine. Cremos que se refira a Heinrich Heine, personagem histórico, poeta alemão do romantismo – em oposição ao iluminismo – de influência enorme dentro e fora da Alemanha da segunda metade do século XIX. Seus poemas são cheios de infelicidade e lamentações amorosas, de um lirismo melancólico profundo. Não é coincidência a ligação do poeta com o personagem sem nome. Conhecidas se tornaram frases de efeito de autoria do poeta, tais como: “Deus me perdoará. É a sua profissão” e “Quem nunca na vida foi doido, jamais foi sábio”.
No início do trecho em epígrafe, “Sem Nome” se pergunta se há a possibilidade da franqueza absoluta e não temer a “verdade integral”, pelo menos consigo. Mas o que é essa “verdade integral”?
O termo “integral”, segundo dicionários vários, significa: inteiro; completo; total; perfeito; exato; inatacável; global. Textos canônicos recentes, alguns escritos pessoalmente pelo Papa Bento XVI, chamam a cristandade em rumo à “verdade integral “ através dos Evangelhos, em oposição ao relativismo que prolifera hoje em todo o mundo. Podemos entender então “verdade integral” como verdade única, que não admite verdade relativa ou qualquer outra verdade, que é “plena”, “llena”, cheia, que não tem para onde transbordar porque tudo está ocupado dela. Então essa “verdade” só pode ter duas origens inspiratórias: É uma “verdade integral” emanada de Deus ou é uma “verdade integral” emanada das leis da natureza.
Croce, a propósito, vê uma relação muito intrínseca entre o naturalismo imanente e a filosofia da história transcendente, conforme o que escreveu: “O naturalismo é sempre coroado por uma filosofia da história... (...) ...quer o universo se explique pelos átomos que se entrechocam... (...) ...choques e movimentos produzem o curso histórico... (...) ...quer ao Deus oculto se chame Matéria, ou Inconsciente... (...) ...quer, finalmente, se conceba como uma Inteligência que se vale da cadeia das causas para realizar seus desígnios.” Em seguida: “ ...todo o filósofo da história é um naturalista e isto porque é dualista e concebe Deus e um mundo, uma Idéia e um facto diferente da Idéia ou subordinado a ela, um Reino de fins e um Reino ou sub-reino de causas, uma cidade celestial e outra que é mais ou menos diabólica ou terrena.” Obviamente que aqui não se trata de uma comparação com a afirmação anterior, mas sim uma tentativa de correlacionar extremos naquilo que eles tem de mais comum: sua verdade como única totalidade universal.
Nosso personagem continua exemplificando em seguida, colocando que Heine afirma que autobiografia exata é quase impossível e que aquele que a faz, há de mentir, afirmação esta que o indagador concorda e até compreende. Até aqui o que nos surpreende é o fato de o personagem central utilizar termos totalizantes próprios também das ciências naturais, quando ele é avesso aos princípios dessa mesma ciência – essa aversão embora não esteja explícita no trecho discutido, está implícita, pois a incorporamos das informações preliminares - e de que um poeta romântico, portanto avesso ao Iluminismo, utilize a palavra “exata”, própria da terminologia Iluminista. Acontece que se trata de uma alegoria em que as indagações e afirmações se dão em tom de sarcasmo.
A trama contida na alegoria começa se tornar mais clara quando se diz que Rousseau, um dos maiores expoentes do iluminismo, intencionalmente mentiu na sua confissão pública por vaidade. É uma alegoria do próprio Iluminismo em cheque.
I. Berlim nos diz mais sobre as origens desse confronto, referindo-se a Voltaire como figura central do Iluminismo, pois foi um implacável divulgador dos seus princípios. O Iluminismo, baseado em “ ...verdades eternas, infinitas, idênticas em todas as esferas da atividade humana – moral e política, social e econômica, científica e artística... “, reconhecíveis somente pelo instrumento da “razão”, não era interpretado por Voltaire pelo método dedutivo da lógica ou matemática, mas pelo “bom senso”, que embora não fosse exato, atingia grande proximidade, própria para os assuntos humanos.
A primeira reação contra essa ditadura da razão, veio de Giambattista Vico de Nápoles. Vico afirmava que a matemática, apesar de ser uma disciplina que levava a proposições irrefutáveis de validade universal, não era, como desde os pensadores antigos se sustentava, reflexo da estrutura básica da realidade, aliás, não era reflexo de nada. A matemática não era uma descoberta, mas sim uma invenção humana. Assim, através de premissas criadas pelo próprio homem, os matemáticos, com regras criadas por eles, podiam chegar a conclusões que, na verdade, resultavam logicamente dessas premissas. Por isso, pelo fato de ser criado pelo homem, poderia ser conhecida por dentro, não como a natureza que era uma criação externa ao homem. Em 1719, Vico afirmou que a história humana também poderia ser conhecida por dentro, pois era um produto dos homens. Como homens, nós éramos privilegiados como observadores de nós mesmos, e, portanto, não poderíamos nos submeter ao ideal de uma ciência unificada de tudo o que existe. Vico via a possibilidade da reconstrução da história pela possibilidade recapturar a experiência coletiva de nossa “raça” pela fantasia, numa espécie de projeção daquilo que seria uma memória coletiva dos primitivos.
Algumas das formulações de Vico foram desenvolvidas posteriormente também por Herder, muito embora não se saiba de algum contato com a obra original. Importante e lembrar da estreita ligação entre Herder e Heine pelo Romantismo alemão, embora sejam de épocas distintas. É também no Romantismo alemão que surge a maior reação aos conceitos do Iluminismo.
Voltando ao texto, necessário é algum esclarecimento a respeito da confissão de Rousseau. A referência se deve, creio mais uma vez, a um incidente ocorrido no séc. XVIII. Um panfleto anônimo, ao que parece escrito por Voltaire, intitulado “Lê sentiment des citoyens” – o sentimento dos cidadãos - acusava Rousseau de hipócrita, pai desnaturado e amigo ingrato. Particularmente denunciava Rousseau de entregar seus cinco filhos com sua empregada doméstica a instituições públicas, depois de considerá-los bastardos. Rousseau, depois disso, resolveu escrever sua autobiografia que se intitulou “Confissões”.
A alegoria assim toma forma: é a negação do Iluminismo através do Romantismo; da verdade produto da natureza através da verdade produto humano; da perfeição pela imperfeição; do racional pelo irracional. Mas “Sem Nome” não se conforma. Diz que, afinal, Rousseau fez uma confissão pública através de um documento público. Ele não. Suas confissões são para si mesmo. Também ele mente sobre si mesmo?
Croce diria que existem história viva e história morta. Um documento público pode ser um documento da história viva, mas jamais um documento nunca divulgado e escrito para si mesmo. Uma autobiografia pública interessa à história na medida em que traga uma contribuição à história dos – e não do – homens de toda uma época. Uma que é reflexão de si para si não interessa. Faz parte, de antemão, da história morta.
E. G. Carr diria mais a respeito. Para o historiador não importa o ponto de vista moral de um determinado protagonista histórico. Só interessaria no caso deste detalhe influenciar de fato nos acontecimentos. Assim, para o historiador, o fato de Rousseau ter mentido sobre si mesmo é irrelevante historicamente. Até por que nenhum documento é sinônimo de verdade, e, por isso mesmo, o historiador tem de duvidar de antemão da veracidade da narrativa. Também não interessa se o personagem “Sem Nome” minta ou não para si mesmo. Interessa sim que este documento jamais será lido por alguém e, portanto, não é documento.
E aqui se fecha a alegoria: homem público x homem privado; sociedade x indivíduo; narrativa história x narrativa literária. Numa metáfora final, são personagens reais em oposição ao personagem fictício. E por ser fictício, nunca esteve no processo histórico.
Mas quem é o personagem, enfim? Lembra-nos as duas dimensões da Grécia Nietzschiana: a Apolínea, que representa a ordem, racionalidade, simetria, etc..., e a Dionisíaca, que representa o mistério, o disforme, a irracionalidade, etc... “Sem Nome” representa a própria face de Dionísio. Só que o personagem escolhe esse seu destino e essa escolha talvez seja um gesto de liberdade. Porque, talvez, para sobreviver, tenha que se transformar no super homem Nietzscheano. Ou, talvez, prefira aquilo que E. G. Carr revela como o mito de Kirilov, personagem em Demônios de Dostoievski que se suicida para demonstrar a liberdade perfeita, pois qualquer outro ato possível seria social.


2006

Um comentário:

Marcia Cardoso disse...

Um livro tão perigoso quanto Memórias de subsolo, pois é um livro cujo prazer que nós temos ao ler é meio amaldiçoado, culpa desejo, são sentimentos que marcam esse texto, pois esse homem do subsolo nada mais simboliza senão a constituição da sociedade moderna. Utiliza Heine, um poeta que trabalha essa relação de ironizar a si mesmo e ás infelicidades, conseguem dar ao artigo maior propriedade, as afirmações do professor.
A linha tênue sobre o que é real e irreal o que perfeito e imperfeito realmente é frágil, falar de si mesmo, ao citar autobiografia de Rousseau, demonstra claramente a preocupação da sociedade moderna em parecer ser.
Marcia Cardoso Dias