domingo, 20 de setembro de 2009

A MÚSICA DE PROTESTO DURANTE A DITADURA

Geraldo Vandre durante apresentação no Festival Internacional da Canção - Maracanazinho - 1968

Chico Buarque de Holanda



Professor Melander

A MPB de protesto surgiu como continuidade e, ao mesmo tempo, negação da bossa nova, movimento alienado da classe média da zona sul do Rio de Janeiro na década de l950, misto de samba e jazz, que se opunha à “ditadura do samba negro” dos morros cariocas, cujos temas eram a beleza da mulher, o mar, o ócio diletante, etc.
Sofreu influência ideológica dos dramaturgos do “Teatro de Arena” e dos “Centros Popular de Cultura” de inspiração comunista, dentro da estética proposta por Jdanov em 1948 (realismo socialista, clareza, simplicidade, tonalismo) e interpretação histórica baseada em Werneck Sodré, sobre a necessidade da revolução democrático-burguesa nacional para atingir a etapa capitalista antes da socialista (etapismo, reformismo).
A temática central mais comum era a do “dia que virá” e o discurso era dirigido ao favelado e ao sertanejo retirante. Os recursos musicais se baseavam no sistema tonal, nos acordes dissonantes de nona maior e nos ritmos sincopados regionais brasileiros.
Caracterizava-se pelo nacionalismo cultural e pelo anti-imperialismo americano.
Em termos práticos, poética e musicalmente, assumiram várias formas: ou de extrema simplicidade (ex: Caminhando = rima pobre, música consonante) ou de complexidade (ex: Sabiá e Ponteio = lírica sofisticada, música com acordes em nona com notável influência dos clássicos [Debussy]).
A música era incrementada de instrumentos regionais (viola, berimbau, etc.) e, quando não, havia a imitação sonora e seqüencial dos mesmos.
Estabeleceram-se, assim, as oposições: samba X jazz; música de raízes X música americana; compositor militante X compositor alienado; música de arte X música consumo; dissonância X consonância musical; viola caipira X guitarra; MPB X jovem guarda, tropicalismo, etc.
As origens históricas desse movimento remontam 1962, quando houve a cisão do PCB e do PC do B, em conseqüência da questão chinesa (rompimento de relações entre a China de Mao e a URSS). Após 1966, com o “racha do Comitê Central do Partidão (PCB), várias organizações surgiram, sendo que a maioria delas optou pela luta armada (a hora é agora). Surgiram assim várias correntes musicais que representavam ideologicamente esses mesmos grupos. É o que aconteceu no Festival da Record de 1967, quando muitas dessas correntes foram contempladas com prêmios.
Em 1968, porém, os acontecimentos transbordaram com a ofensiva do Tet no Vietnã, os estudantes nas ruas em Paris, a Primavera de Praga, os protestos anti-guerra nos EUA, a movimentação estudantil em São Paulo e Rio de Janeiro e a guerrilha em plena atividade.
Nesse contexto, durante as eliminatórias do Festival Internacional da Canção (Globo), os compositores “alienados” foram desclassificados logo de início por pressão “popular”, indicando a radicalização ideológica do momento.
No entanto, na final brasileira, ganhou “Sabiá” de Chico Buarque de Holanda e Tom Jobim, que era uma canção de exílio considerada “reacionária”, contra “Caminhando” de Geraldo Vandré, que era uma crítica ao pacifismo hippie das flores e um rompimento com o conceito do “ dia que virá” (quem sabe faz a hora, não espera acontecer).
Tanto Chico como Vandré sofreram ameaças por parte da ditadura. Vandré, entretanto, assumiu uma postura militante de enfrentamento em suas músicas. Chico, ao contrário, optou pelo “dia que virá” e não pela “a hora é agora”, conforme trecho de Sabiá: “vou voltar, sei que ainda vou voltar, para o meu lugar”.

FONTES:

MELANDER FILHO, Eduardo. A Música de Protesto Durante a Ditadura. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 11 set 2009 a 24 set 2009. História, p. 2.

MELANDER FILHO, Eduardo. A Música de Protesto Durante a Ditadura. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 11 set 2009 a 24 set 2009. Edição 139, p. 2. Disponível em: http://www.gazetadeinterlagos.com.br. Acesso em: 18 set 2009.

ACESSO ÀS MÚSICAS E VÍDEOS CORRESPONDENTES DAS MÚSICAS RELACIONADAS NESSE ARTIGO:

- O Ponteio de Edu Lobo e Capinam, com Marilia Medalha e Edu Lobo – 1967
http://www.youtube.com/watch?v=GWPmnVjIC5E

- Caminhando ou Prá não dizer que não falei das flores de e com Geraldo Vandré – 1968
http://www.youtube.com/watch?v=PDWuwh6edkY

- Sabiá de Chico Buarque de Holanda e Tom Jobim com Cynara e Cybele – 1968
http://www.youtube.com/watch?v=U9epAdaRXCk&feature=PlayList&p=F60D3DA7F43A4640&playnext=1&playnext_from=PL&index=24

FONTES COMPLEMENTARES DE ARTIGOS ANTERIORES:

MELANDER FILHO, Eduardo. São Paulo: um resumo histórico-social. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 28 ago 2009 a 10 set 2009. Edição 138, p. 2. Disponível em: http://www.gazetadeinterlagos.com.br . Acesso em: 18 set 2009.

MELANDER FILHO, Eduardo. O “Se” na História. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 14 ago 2009 a 27 ago 2009. Edição 137, p. 2. Disponível em: http://www.gazetadeinterlagos.com.br . Acesso em: 18 set 2009.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

SÃO PAULO: UM RESUMO HISTÓRICO-SOCIAL

Velejar na represa do Guarapiranga em cheia: uma das opções de lazer da cidade de São Paulo.


Professor Melander

A cidade de São Paulo foi fundada em 1554 pelos Jesuítas, junto a uma aldeia Tupi. Seu primeiro nome foi o de “São Paulo de Piratininga”, que em tupinambá quer dizer: peixe seco.
No transcorrer dos séculos XXVI, XXVII e XXVIII, serviu como residência e base de abastecimento dos bandeirantes, que adentravam no interior do continente em terras espanholas em busca de riquezas e a fim de escravizar os índios. Esses aventureiros falavam a língua geral brasileira, que era uma espécie de tupi antigo, e também o espanhol. A maioria mal sabia pronunciar algumas palavras em português.
Até a primeira metade do século XIX, São Paulo era uma cidade pequena, menor do que algumas cidades do interior paulista, como Campinas. A partir da segunda metade do século XIX, com a expansão do café e a construção de vias férreas para escoamento da produção, a cidade tornou-se um centro de entroncamento ferroviário, comércio e abastecimento, crescendo em conseqüência disso.
A imigração estrangeira e a libertação dos escravos fizeram com que São Paulo também tivesse seu crescimento populacional incrementado. Os italianos, em particular, se deslocaram para a cidade no final do século XIX e começo do XX, fugindo das duras condições de trabalho nas fazendas do interior e para onde haviam se dirigido quando chegaram ao Brasil.
Mas foi somente com Getúlio Vargas, a partir de 1932, que São Paulo entrou em vertiginoso crescimento industrial, devido às políticas de incentivo daquele presidente. A partir daí, nunca mais deixou de crescer.
Nova grande migração aconteceu na segunda metade do século XX, agora de nordestinos em geral, forneceu mão de obra não qualificada barata para a construção civil e também para determinados setores da indústria.
Hoje, São Paulo é uma das maiores cidades do mundo em termos populacionais. A região considerada “grande São Paulo”, que abarca os municípios circunvizinhos, possui mais de 15.000.000 de habitantes, perdendo na América Latina apenas para a cidade do México, que é a maior do mundo.
Obviamente que uma megalópole dessas proporções tem também grandes problemas a serem resolvidos, muitas vezes gerados pelo seu próprio gigantismo. Bairros ricos convivem com favelas, lado a lado. Grandes fortunas individuais coexistem com uma grande massa de desempregados e sem teto, desprovida de serviços públicos como saneamento, eletricidade regular, asfalto, hospitais, postos de saúde e escolas suficientes. Há todo um processo de marginalização da periferia da cidade, fazendo com que as pessoas, principalmente os jovens, não cultivem perspectivas para o futuro, permanecendo numa constante baixo-estima pessoal. A violência decorrente é fruto dessas contradições, assim como também da falta de ética e humanidade, muitas vezes agravada por forte desvio de personalidade individual.
Paralelamente, oportunidades únicas para a melhoria das condições de vida e de crescimento do horizonte mental se apresentam. A cidade possui os melhores hospitais, escolas, universidades, vida cultural e opções de lazer do país, além de oferecer muitas perspectivas de realização profissional.
São Paulo é uma cidade que oferece o que há de melhor no mundo, mas também o que há de pior.

FONTE:

MELANDER FILHO, Eduardo. São Paulo: Um resumo Histórico-social. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 28 ago 2009 a 10 set 2009. História, p. 2.

O "SE" NA HISTÓRIA

Universidade de São Paulo: Campus da capital


Professor Melander

Foi Platão quem primeiro professou a ideia, conforme os ideais socráticos, de que vencer a sabedoria pela ignorância e a essência pela aparência, utilizando uma retórica comprometida como “ganhar uma discussão a qualquer custo”, é sofisma, diminutivo pejorativo de “sophoi” (sabedoria), em oposição aos propósitos vinculados à busca incessante da verdade.
Os sofistas, dessa maneira, estariam mais propensos primeiramente à persuasão e por último à verdade. Em última análise, os sofismas ou falácias são tapeações bem montadas e destinadas a consecuções de práticas demagógicas.
Aristóteles, posteriormente, montou um esquema de prevenção, onde desenvolveu uma classificação tipológica dos sofismas conhecidos na época. Nela ele descreveu treze falácias ou argumentos falaciosos, dentre as quais o “contrafáccio” ou “hipótese contrária ao fato”, que é um argumento do tipo “se Judas não tivesse traído, Jesus teria sido crucificado?”.
Quando pensamos em História, pensamos imediatamente no passado, em fatos que aconteceram. Pensar, pois, em possibilidades outras de acontecimentos que poderiam surgir como alternativa contestatória aos fatos reais, seria no mínimo de temeridade certa, pois a matéria prima do historiador é a dos acontecimentos do passado e não dos possíveis acontecimentos que nunca se realizaram.
Para um historiador positivista, que pensa numa História descritiva e não interpretativa, a simples ideia da possibilidade de existir acontecimentos históricos não registrados em documentos deve ser considerada heresia.
Já para um historiador que pensa numa explicação teológica da História, o contrafáccio seria aceitável, pois, segundo ele, a História não seria mais do que uma ilustração dos desígnios divinos, uma alegoria em que os homens seriam apenas atores de Deus, que provariam através dos acontecimentos a pequenez humana e a Sua grandeza perante a trama formada por Ele mesmo. Aos que professam essa História baseada num “didatismo moral divino” é necessário se mostrar a todo o momento a ideia do contrário. Deus luta constantemente contra as forças opostas: as dos príncipes angelicais traidores. São eles mandados por “Lúcifer” ou “Mefistófeles dos gregos”, que “dá ordens a setenta e oito príncipes, que comandam seiscentas e sessenta e seis Legiões formadas cada uma delas por seis mil, seiscentos e sessenta e seis anjos caídos ou demoníacos”. A possibilidade de acontecimentos paliativos ou alternativos está a todo momento em colocação disponível, mesmo que, inexoravelmente, Ele, com seus vaticínios deíficos, sempre Se impôs, Se impõe e Se imporá perante a História, pois Ele era, é e será.
A princípio, os maiores adversários da hipótese contrária ao fato deveriam ser os historiadores marxistas, pois acreditamos que a História é uma ciência cujas experiências não se realizam em laboratório, mas sim nos próprios acontecimentos passados (a História é seu próprio laboratório). Assim, o processo histórico é definido como objeto de estudo, onde o coletivo se sobrepõe ao individual, a infra-estrutura à superestrutura, o econômico à sociedade. As realizações efetivas e concretas, portanto, seriam os parâmetros de uma análise marxista da História, o que implicaria numa noção analítica aplicável sobre os “acontecimentos reais” e não sobre os “hipotéticos”. Apesar disso, alguns historiadores marxistas, como é o nosso caso, consideramos aceitável a utilização do contrafáccio enquanto “indagação”, como algo presente na própria elaboração construtiva das ciências, mas não enquanto “imposição metodológica”.

FONTE:

MELANDER FILHO, Eduardo. O “Se” na História. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 14 ago 2009 a 27 ago 2009. História, p. 2.

sábado, 8 de agosto de 2009

UMBU-CAJÁ E CAJÁ-MANGA: DE ONDE VIERAM?

UMBU-CAJÁ

CAJÁ-MANGA



Professor Melander

O Brasil sempre foi considerado um país de riquezas naturais, onde “se plantando tudo dá”. Por isso mesmo é que muitos consideram que a maioria das plantas domésticas que consumimos são originárias daqui, principalmente as frutas. Mais ainda: das Américas, porque as plantas não têm fronteiras nacionais, mas eco-geográficas e, em última análise, continentais. E é exatamente o confinamento de algumas espécies vegetais ou animais em sistemas ecológicos distintos que as faz evoluir, surgindo daí novas espécies.
Há 290 milhões de anos existia apenas um continente chamado Pangéia. Separou-se em dois blocos há 210 milhões de anos: a Laurásia (formada pelas atuais América do Norte, Eurásia e Groenlândia) e Gondwana (América do Sul, África, Antárdida, Austrália, Índia e Madagascar). A partir daí os continentes foram se separando, juntando-se uns aos outros posteriormente. A América do sul obteve sua separação da África há 140 milhões de anos, unindo-se à Antártida há 75 milhões de anos por um breve período. A América do Norte foi separada da atual Europa e Groenlândia há 40 milhões de anos. Somente há 5 milhões de anos foi que as Américas se juntaram através da América Central, dando origem a um intercâmbio de espécies animais e vegetais, após um longo período de isolamento. Há 10.000 anos começou o processo de domesticação de plantas e animais pelo homem, cujas espécies produzidas aqui eram distintas das do “velho mundo”. Apenas após o descobrimento das Américas é que essas plantas se disseminaram por todos os continentes.
Assim, relacionamos a origem da maioria da plantas consumidas no Brasil como alimentação. Plantas originárias da costa mediterrânica: Alcachofra, azeitona (oliveira), beterraba, repolho e rúcula. Originárias da Eurásia: Aspargo, castanha, couve e framboesa. Da Europa: Acelga, aipo, alface, alho-poró, almeirão, aveia, brócolos, champignon, coentro, morango, pêra, salsão, salsinha e tremoço. Da África: Bucha, café, dendê, jiló, maxixe, pimenta malagueta, quiabo, romã e sorgo. Da Oceania: Cajaraneira, fruta-pão e macadâmia. De origem asiática: Agrião, alho, ameixa, amêndoa, amora, anis-estrela, arroz, avelã, banana, berinjela, caqui, carambola, cebola, cebolinha, cenoura, centeio, cereja, cevada, cidra, couve-flor, damasco, erva-doce, ervilha, espinafre, figo, grão-de-bico, groselha, jaca, jambo, jambolão, kiuwi, laranja, lentilha, lima, limão, maçã, manga, marmelo, melancia, melão, nabo, nectarina, nêspera, noz, noz-moscada, pepino, pêssego, pimenta-do-reino, rabanete, ruibarbo, shiitake, soja, tâmara, tamarindo, tangerina, trigo e uva. Plantas de origem americana: Abacate, abacaxi, abóbora, abiu, abricó, abricó-do-pará, acerola, actimida, aipim, ajurú, amendoim, ananás, araçá, araçá-boi, araticum-do-campo, assai, babaçu, banana-do-brejo, baru, batata, batata-doce, biriba, buriti, cabeça-de-negro, cacau, cagaita, cajá, caju, camu-camú, castanha-do-pará, ceriguela, chiclet, chuchu, cupuaçu, embaúba, feijão, feijoa, fruta-do-conde, fruto-de-jacú, girassol, goiaba, graviola, guabiroba, guaraná, ingá, inhame, jabuticaba, jatobá, jenipapo, jussara, laranja-do-campo, limão bravo-do-brejo, maçaranduba, macaúba, mamão, mandioca, mangaba, maracujá, mari, maria preta, marolo, milho, murici, pepino-do-mato, pequi, pimentão, pimentas (quase todas conhecidas), pinha, pinhão, pitomba, pupunha, quina, sapoti, sapucaia, tabaco (fumo), taioba, tomate, tucumã, umbu, umbugueleira, urucum e uvaia.
Mas, e o umbu-cajá e o cajá-manga? O primeiro é um híbrido de origem americana e o outro procede da Oceania.

FONTES:

MELANDER FILHO, Eduardo. Umbu-cajá e Cajá-manga: de onde vieram? Gazeta de Interlagos, São Paulo, 31 jul 2009 a 13 ago 2009. História, p. 2.

MELANDER FILHO, Eduardo. Umbu-cajá e Cajá-manga: de onde vieram? Gazeta de Interlagos, São Paulo, 31 jul 2009 a 13 ago 2009. P. 2. Disponível em: <http://www.gazetadeinterlagos.com.br/136/colunadoleitor.html#3>. Acesso em: 04 ago 2009

sexta-feira, 24 de julho de 2009

OS MARXISMOS DO SÉCULO XX



Professor Melander

A celebração da modernidade, entendida como o conjunto de idéias oriundas do Iluminismo, modernidade esta que incita rumo à ciência e o progresso, a liberdade e a igualdade, a racionalidade e a autonomia, está presente no Manifesto Comunista de 1848 de Marx e Engels, entendendo-se que estas metas só podem ser atingidas plenamente muito além do capitalismo. Daí que o projeto político, científico e filosófico de Marx, se propunha a atingir este “além”. Marx entendia que a tarefa de superação das relações de produção capitalista estaria a cargo do movimento operário, que deveria ser suficientemente sólido e organizado para superar a ordem capitalista estabelecida.
Durante os primeiros vinte anos do século XX até a revolução “Bolchevique”, o movimento revolucionário de norte marxista parecia que de fato iria num curto prazo derrotar o capitalismo, naquilo que seria a “idade do ouro” do marxismo. Ocorreu também a introdução do marxismo nas ciências sociais, sendo Marx considerado um dos fundadores da sociologia.
Foi quando aconteceu o grande debate da sociologia contemporânea entre a teoria de Marx e a teoria de Max Weber sobre as origens do capitalismo, o papel da economia na vida social e política, classes sociais, leis de transformação social e a discussão sobre o socialismo. Foi, também, nessa época, que houve duas grandes cisões originárias destas reflexões. A primeira, de caráter político, designada de “controvérsia revisionista”, aconteceu após publicação dos artigos de Eduard Bernstein em “Die Neue Zeit” desde 1896. Bernstein apontava que o capitalismo dispunha de energia suficiente para superar suas crises, que seriam cada vez de menor intensidade, ao contrário da previsão de Marx. A segunda, de caráter epistemológico, envolveu os austro-marxistas Max Adler, Otto Bauer, Rudolf Hilferding e Karl Renner, que sob inspiração do neokantismo e positivismo de Ernst Mach, queriam transformar o marxismo numa ciência empírica, numa sociologia das sociedades capitalistas. Essa concepção foi contestada por vários teóricos, dentre os quais Gramsci e Lukacs.
Nos anos trinta e quarenta a ameaça causada pelo fascismo e capitalismo imperialista colocou em risco a existência do marxismo. O enfraquecimento do movimento socialista na Europa Ocidental, assim como o surgimento do estalinismo, foram indicativos reveladores deste processo. Nesse período, além da liquidação teórica e física de Plekanov, Bukharin, Riazanov e Trotsky pelo estalinismo, houve a duros custos a sobrevivência da reflexão austro-marxista e da Escola de Frankfurt na clandestinidade.
Nos anos cinqüenta, até aos anos setenta, o marxismo reapareceu com toda a força. A revolução chinesa, os movimentos de descolonização, a criação de novos países, a revolução cubana, o movimento estudantil da década de sessenta e a emergência de fortes partidos socialistas e comunistas, foram indicativos concretos desse reaparecimento.
No entanto, havia uma profunda crise no marxismo. A revolução húngara de 1956 e a repressão que se seguiu à invasão de tropas soviéticas, foi um marco divisório definitivo. Após os anos setenta, o marxismo foi declinando. Depois da queda do muro de Berlim e a derrocada dos regimes do bloco soviético, o marxismo praticamente desapareceu. Desapareceu? Há posições antagônicas a respeito, assim como interpretações diversas e distintas sobre a teoria marxista. Muitos consideram que o capitalismo se encontra em crise estrutural, pois a promessa contida nele de um progresso da humanidade não se cumpriu. Apesar disso, parece que não há alguma alternativa forte a ele nesse momento histórico. Por isso ele ressurgirá inexoravelmente como fonte de inspiração de futuras demandas sociais.

FONTES:

MELANDER FILHO, Eduardo. Os Marxismos do Século XX. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 17 jul 2009 a 30 jul 2009. História, p. 2.

MELANDER FILHO, Eduardo. Os Marxismos do Século XX. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 17 jul 2009 a 30 jul 2009. P. 2. Disponível em: <
http://www.gazetadeinterlagos.com.br/135/colunadoleitor.html#3>. Acesso em: 24 jul 2009.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

CULTURA E OPULÊNCIA DO BRASIL: OBRA DO PE. ANTONIL – PARTE I

Prof. Melander

No século IV aC. Xenofonte escreveu o tratado “Oikonomikos”, baseado em tradições Socráticas. Tratava-se de um diálogo filosófico com o intuito de estabelecer regras sobre a “arte de bem governar a casa”. Nesse tratado existe uma série de orientações de como o homem livre deve administrar a sua propriedade, se relacionar com os escravos e servos, com a esposa, com os filhos, etc. Aliás, o termo grego oikonomikos dá origem à palavra atual “economia”.
Essa “arte de bem governar” foi, durante a Idade Média, o padrão ideológico predominante no qual a Igreja se inspirava. Reproduzia o modelo do texto, tanto na construção formal dos seus documentos, quanto em termos éticos de como deveria ser o comportamento do Senhor Feudal em relação aos seus servos, familiares, vassalos e suseranos.
O Padre Jesuíta André João Antonil seguiu essa tradição na construção formal do seu escrito quando escreveu o livro “Cultura e Opulência do Brasil”, obra de importância transcendental para compreendermos o “sistema de engenhos de cana de açúcar”, publicada em 1711. A maneira de se escrever conforme os “antigos”, fazia parte da tradição à que nos referimos. Os Lusíadas tem o mesmo corpo de construção “poético” da Odisséia. Da mesma forma, Antonil tratava os Senhores de Engenho, de acordo com essa tradição, reconstruindo realidades da época a partir de linhas de construção de pensamento e métodos baseados na antiguidade grega, como sendo pessoas de cabedal e com capacidade de dirigir. Sugeriu os comportamentos “nobres” que eles deveriam manter com a sua família, iguais (homens livres), escravos, etc.
Essa visão, perfeitamente encaixada na ordem Estamental da Idade Média, refletia a necessidade, segundo o que percebemos na obra do autor, de regulamentar uma situação existente, ou seja, o enquadramento dos Senhores de Engenho dentro do “sistema vigente”, tornando-os passíveis da conquista da dignidade de um verdadeiro “fidalgo”.
O ponto de vista de Antonil era, possivelmente, o mesmo que na época tinham os Senhores de Engenho. Primeiro, pela notória influência cultural da Igreja, particularmente dos Jesuítas, na formação da sociedade e até das instituições do período. Segundo, pela própria condição de serem, praticamente, os únicos letrados da época, condição essa que lhes dava o monopólio da produção da ideologia dominante.
De qualquer forma, os Senhores de engenho não tinham uma vocação “capitalista” na acepção da palavra. Vinham para o Brasil com a perspectiva pessoal de enriquecimento rápido “nessa terra de mil oportunidades” e com o intuito de reforçar ou conquistar um título de nobreza. Ou seja, o objetivo era o de se acomodarem dentro do estamento social dominante.
A própria origem social deles era incerta. Sabemos que, originalmente, muitos Fidalgos despossuídos vieram para o Brasil. Na época de Antonil, muitos Jesuitas eram proprietários de Engenhos, o que revela um interesse mercantil por parte dos mesmos. E, também, cristãos novos (judeus convertidos ao cristianismo pela força ou voluntariamente). Indícios dessa rama são latentes. Até hoje, grandes famílias nordestinas pertencentes à oligarquia “terratenente” nacional, tem sobrenomes tais como: Carvalho, Silva, Cajazeira, Oliveira, etc.

FONTES:

MELANDER FILHO, Eduardo. Cultura e Opulência do Brasil: Obra do Pe. Antonil – Parte I. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 19 jun 2009 a 02 jul 2009. História, p. 2.

MELANDER FILHO, Eduardo. Cultura e Opulência do Brasil: Obra do Pe. Antonil – Parte I. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 19 jun 2009 a 02 jul 2009. P. 2. Disponível em: <
http://www.gazetadeinterlagos.com.br/colunadoleitor.html#2>. Acesso em: 27 jun 2009.

A segunda parte deste artigo pode ser acessada em: <
http://edmelander.blogspot.com/2009/07/cultura-e-opulencia-do-brasil-obra-do.html>.

CULTURA E OPULENCIA DO BRASIL: OBRA DO PE. ANTONIL – PARTE II



Prof. Melander

A adoção de sobrenomes era uma prática compulsória, pois, na baixa Idade Média, servos e artesãos foram obrigados a vincular ao seu nome o status profissional ou servil camponês (Ferreira, Trigo), sendo, muitas vezes, obrigados a acrescentar também o nome do seu local de origem profissional (sua jurisdição Feudal). Aos Judeus, mesmo que convertidos (Cristãos Novos), deslocados dessa ordem por estarem proibidos de exercer uma profissão hereditária, restava a adoção de “apelidos alternativos” (em Portugal, adotaram nomes de plantas ou árvores). Isso não aconteceu apenas em Portugal, mas em toda a Europa. Na Alemanha, por exemplo, Reismann (plantador de arroz) era o servo ligado à gleba da terra de origem hereditária e Reisman (com um “n” a menos), era de origem judaica, sem relação nenhuma de vínculo feudal.
A ausência de um substrato social relevante e predominante na formação da “classe dos Senhores de Engenho” (não se entenda “classe” como classe imbuída num sistema capitalista), levava, necessariamente, a uma perspectiva mais integrada com a opção Estamental da Idade Média.
O discurso de Antonil era diferente do de Antônio Vieira. O primeiro, segundo várias biografias do autor, era contra os Cristãos Novos e a favor da escravidão indígena. Vieira, ao contrário, complicou-se com a Inquisição de Portugal por defender os Cristãos Novos, Judeus e a não escravização indígena. Na verdade eram duas perspectivas diferentes perante uma realidade nova à ordem Feudal, mas ambas no sentido de mantê-la. A de Antonil caminhava na direção de integrar os homens de sangue puro (Cristãos Velhos) ao “status quo”. Em relação aos índios, considerando o aumento de preço dos escravos negros em função de crises internas e externas que se apresentavam no contexto da época (Guerra de Sucessão Espanhola, descobrimento das “Minas Geraes”, fuga de escravos, Quilombo de Palmares, etc.), apoiava o “Aldeamento” sob tutela civil (a querela dos paulistas caçadores de índios), o que significava escravidão indígena, na prática. Padre Vieira, como podemos notar em seus famosos sermões da época, defendia o resgate da antiga ordem, com a suposição de que todos os que eram daqui, nativos (indígenas), nascidos (crioulos) ou vindos (o que incluía os Cristãos Novos), eram passíveis de conversão à disciplina da “Ordem de Deus”. Nesse sentido, Antonil se aproximava muito mais da nova ordem ligada ao Mercantilismo, embora, contraditoriamente, abraçasse as orientações anti-semitas da Inquisição. Propunha a defesa dos interesses dos Senhores de Engenho, tentando amenizar a rígida disciplina religiosa que impunha um trato menos severo a ser dado aos escravos e a obrigatoriedade de descanso dos mesmos nos feriados e festas religiosas.
Por fim, a obra de Antonil projeta, através de suas críticas e observações, a organização da produção açucareira dirigida rumo à “eficiência”, não num sentido de um aumento de produtividade que apontasse numa acumulação capitalista, mas sim em direção a uma maior lucratividade baseada na redução de perdas no aproveitamento da matéria prima e na redução de custos conseqüente.

FONTES:

MELANDER FILHO, Eduardo. Cultura e Opulência do Brasil: Obra do Pe. Antonil – Parte II. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 03 jul 2009 a 16 jul 2009. História, p. 2.

MELANDER FILHO, Eduardo. Cultura e Opulência do Brasil: Obra do Pe. Antonil – Parte II. Gazeta de Interlagos, São Paulo, 03 jul 2009 a 16 jul 2009. P. 2. Disponível em: <
http://www.gazetadeinterlagos.com.br/134/colunadoleitor.html#2>. Acesso em: 06 jul 2009.